Como são as 'prisões para obesos' da China: pesagem duas vezes por dia, exercícios intensos e lanches proibidos

Crédito, TL Huang
- Author, Sarah Bell
- Role, Saúde Global
- Author, Programa "What in the World"
- Role, Serviço Mundial da BBC
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- Tempo de leitura: 7 min
Nas redes sociais circulam vídeos que mostram pessoas fazendo exercícios em um grande ginásio, formando fila para a refeição e dormindo em dormitórios com diversas camas.
São imagens de um novo centro de emagrecimento — que, longe de ser um spa luxuoso, é uma espécie de acampamento sob disciplina militar para perder peso na China.
Descritos por alguns como "prisões de obesos", os acampamentos proíbem rigorosamente que as pessoas comam entre os horários das refeições e exigem duas visitas obrigatórias à balança, todos os dias.
Segundo a imprensa chinesa, existem cerca de mil acampamentos deste tipo em todo o país.
A China também sofre com a crise mundial de obesidade. E, por US$ 600 (cerca de R$ 3 mil), é possível reservar uma estadia de um mês com alojamento, alimentação e sessões diárias de exercícios.
A criadora de conteúdo TL Huang relatou sua experiência em um desses centros no Instagram.
Ela declarou ao podcast What in the World, do Serviço Mundial da BBC, que "com certeza, se sentiu em uma prisão".
Huang não saiu do recinto por 28 dias.
"Nossos treinadores ficavam ali para nos supervisionar, para garantir que não ingeríssemos comida não saudável às escondidas e que assistíssemos a todas as aulas", ela conta.
"Eles não permitiam que faltássemos às aulas, nem que abandonássemos o acampamento sem um bom motivo."
Huang afirma que o acampamento, para ela, foi eficaz. Mas especialistas em nutrição alertam que métodos extremos podem trazer graves riscos físicos e psicológicos.
"Alguns acampamentos estariam buscando perdas de peso de um quilo por dia. Isso supera em muito o limite considerado seguro, até mesmo para adultos sob supervisão médica", segundo o nutricionista e personal trainer Luke Hanna, que vive em Londres, no Reino Unido.
Mas como funcionam estes acampamentos e por que eles se tornaram tão populares?
'Hora de promover mudanças'
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
Huang conta que ficou sabendo dos acampamentos por meio da sua mãe.
A jovem tinha acabado de concluir uma viagem que fez sozinha pela China, em que abandonou a rotina e fazia vários pedidos de refeições por delivery. Além disso, nos últimos três anos, ela havia engordado cerca de 20 kg, segundo ela própria.
Ela ouvia comentários de parentes sobre seu peso e sentiu que "estava na hora de promover mudanças".
"Eles me deixavam com vergonha do meu peso", relembra Huang. "Mas, ao mesmo tempo, imagino que queriam me ajudar."
Comparecer ao acampamento foi um "enorme choque cultural". Mas ela conta que havia uma forte camaradagem entre os participantes, unidos pelo desejo de perder peso juntos.
Os dias começavam às 7h30 da manhã com a primeira pesagem.
Depois vinham quatro horas de exercícios, com aulas de spinning (sessões de alta intensidade em bicicletas ergométricas), trampolim, treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT, na sigla em inglês — um treinamento de força e resistência, que combina exercícios aeróbicos e anaeróbicos), Tabata (uma forma mais intensa de HIIT) e levantamento de pesos.

Crédito, TL Huang
O café da manhã podia consistir, por exemplo, de quatro ovos cozidos, meio tomate e duas rodelas de pepino.
Em um vídeo, ela mostrou um almoço, que consistia de camarão, verduras no vapor e tofu ou peixe no vapor, salsão, verduras no vapor e couve-flor.
As refeições eram "boas, equilibradas e projetadas para imitar a comida chinesa do dia a dia".
Após o jantar, os participantes faziam uma hora de spinning antes da segunda pesagem, às 19h30. Em seguida, eles podiam tomar banho e descansar.
Huang conta que o regime, para ela, pareceu "uma grande novidade" na primeira semana, mas depois se deu conta de que teria de mantê-lo por mais três semanas. Ela diz que enviar mensagens a amigos a ajudou a seguir adiante.
Mesmo descrevendo as instalações como sendo parecidas com uma prisão, Huang acredita que a experiência valeu a pena. Ela perdeu 6 kg em 28 dias.
"Aquilo me deu a estrutura que eu precisava para um novo começo", segundo ela.
'Pode prejudicar o desenvolvimento normal'
Mas os especialistas recomendam cautela. O enfoque dos acampamentos é preocupante porque quando perdemos peso, podemos perder tanto gordura quanto massa muscular, segundo Luke Hanna.
Por isso, se empregarmos métodos extremos, como o exercício excessivo, aumentam as chances de perdermos massa muscular — o que é especialmente problemático no caso de jovens e crianças.
"Também é possível que isso prejudique o desenvolvimento normal, o que pode afetar a estatura final e a saúde dos ossos", explica ele.
Poderiam ainda surgir problemas psicológicos, o que aumenta significativamente o risco de desenvolvimento de transtornos alimentares.

Crédito, Getty Images
"Algumas pessoas perdem muito peso, o que pode parecer atraente, mas muitas o recuperam rapidamente quando retornam à sua vida normal, por não terem abordado as causas ou problemas subjacentes", destaca Hanna.
O NHS, serviço público de saúde do Reino Unido, recomenda perda de peso gradual, entre 500 g e 1 kg por semana.
Hanna aconselha que as pessoas se concentrem em mudanças graduais de hábitos no seu cotidiano, comendo alimentos nutritivos regularmente, ingerindo proteína em quantidade suficiente e fazendo exercício por prazer, não como castigo.
Em um vídeo posterior no Instagram, TL Huang comenta que o mais difícil foi voltar para casa, pois seu corpo parecia não saber mais o que era comer "normalmente".
Uma dieta saudável deveria incluir pelo menos cinco porções de frutas e verduras por dia, além de 150 minutos de exercícios por semana.
Beber água em vez de refrescos açucarados e reduzir o consumo de alimentos ricos em gordura e açúcar também pode trazer benefícios.
Discriminação
Os acampamentos de emagrecimento se popularizaram na China no início da década de 2000, quando um programa de TV mostrou como funcionavam diversos programas de redução de peso, segundo a jornalista Wanqing Zhang, da unidade Global China da BBC.
Depois começaram a surgir os acampamentos. Mas o verdadeiro auge veio nos últimos 10 anos, com as redes sociais.
"Se você navegar pelas redes sociais chinesas, irá encontrar muito conteúdo publicado, tanto por organizadores dos acampamentos, quanto por participantes", conta Zhang.
Os acampamentos podem variar. Alguns são mais baratos e seguem o estilo militar, como o centro onde esteve Huang, e podem ter até câmeras de vigilância do lado de fora dos dormitórios para evitar que participantes recebam delivery encomendado secretamente, explica Zhang.
Outros são mais luxuosos, "onde você pode correr em uma esteira com vista para um belo lago".

Crédito, TL Huang
A obesidade é um problema cada vez maior em todo o mundo.
Em cerca de dois terços dos países, mais de 50% dos adultos têm obesidade ou sobrepeso. As autoridades sanitárias chinesas calculam que 34% dos adultos do país tenham sobrepeso e 16% sejam obesos.
Existe também um problema cultural, segundo Zhang.
"A China é um país com aceitação e tolerância relativamente baixa em relação à diversidade de peso. Isso significa que, se você tiver sobrepeso, provavelmente sofrerá maiores discriminações no trabalho ou nas suas relações sentimentais."
Os carboidratos refinados presentes no arroz, no macarrão e nos tradicionais guiozas (pequenos bolinhos de massa fina que podem ser recheados) são um problema constante.
Outra questão é que, não só na China mas em todo o mundo, as pessoas passam o tempo livre em casa usando celulares e tablets, em vez de saírem ao ar livre.
Agora, a conta de Huang no Instagram mostra que a jovem está na Tailândia, participando de outro desafio de perda de peso por 30 dias, que inclui exercícios por duas horas diárias, sob calor extremo.
Ouça aqui o episódio do podcast What in the World, do Serviço Mundial da BBC (em inglês), que deu origem a esta reportagem.
































