Como Trump virou presidente que mais enriqueceu na Casa Branca; em 12 meses, ganhou o equivalente a 614 mil anos de salário mínimo brasileiro

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- Author, Daniel Bush
- Role, Correspondente da BBC News em Washington
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O então presidente dos Estados UnidosHarry Truman (1945-1953) deixou a Casa Branca sem nenhuma fonte de renda além de sua pensão do Exército, de US$ 113 por mês (cerca de R$ 7.300 em valores corrigidos). Truman, o 33º presidente dos EUA, escreveria mais tarde que era errado "explorar comercialmente o prestígio e a dignidade do cargo de presidente".
O ex-presidente dos EUA George W. Bush (2001-2009) colocou seus investimentos em um "truste cego" (fundo no qual os recursos são geridos de forma independente) antes de concorrer à Presidência. Em sua última semana como presidente, ele disse que não tinha ideia de como a crise econômica de 2008 havia afetado seu patrimônio.
Por outro lado, o atual presidente dos EUA, Donald Trump, ganhou ao menos US$ 2,2 bilhões (cerca de R$ 11,9 bilhões) em seu primeiro ano de volta à Casa Branca, segundo um novo relatório de divulgação financeira. Para dar uma dimensão do valor, uma pessoa que recebesse um salário mínimo brasileiro atual (R$ 1.621 por mês) levaria quase 614 mil anos para acumular essa quantia, desconsiderando reajustes salariais, inflação, variações cambiais e gastos.
Essa é uma quantia de que historiadores consideram sem precedentes e que rompeu com a norma de presidente dos EUA evitarem conflitos de interesse financeiros na Casa Branca.
"Simplesmente não há precedente para isso", disse Barbara Perry, historiadora presidencial no Miller Center, da Universidade da Virgínia, nos EUA. "É algo além de tudo o que já vimos na presidência."
Os enormes ganhos de Trump em 2025 expuseram o quanto ele se beneficiou de seu retorno ao cargo por meio de negócios lucrativos que muitas vezes embaralham a fronteira entre a formulação de políticas públicas oficiais e os interesses privados do presidente, de sua família e de assessores próximos.

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Só no setor de criptomoedas, por exemplo, Trump obteve US$ 1,4 bilhão (em torno de R$ 7,6 bilhões), segundo a declaração divulgada na terça-feira (30/6).
Trump reportou ter obtido ainda US$ 635 milhões (cerca de R$ 3,4 bilhões) em royalties da Celebration Coins, empresa apontada como responsável pelo meme coin $TRUMP, uma criptomoeda lançada um pouco antes de seu segundo mandato.
Trump também declarou mais de US$ 500 milhões (cerca de R$ 2,7 bilhões) em receitas provenientes da empresa de criptomoedas World Liberty Financial. A companhia foi fundada por dois de seus filhos, Donald Trump Jr. e Eric Trump, e pelos filhos de Steve Witkoff, enviado especial de Trump para o Oriente Médio e a Ucrânia.
A renda declarada por Trump em 2025 foi quase quatro vezes maior que os US$ 622 milhões (cerca de R$ 3,4 bilhões) informados em 2024, ano anterior ao seu retorno à Presidência.
A Casa Branca negou que Trump e sua família tenham lucrado com a presidência.
"Nem o presidente, nem sua família se envolveram, nem jamais se envolverão, em conflitos de interesse", afirmou a vice-secretária de imprensa da Casa Branca, Anna Kelly, em uma declaração sobre o caso.
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
Ela acrescentou: "Todas as ações do presidente Trump e de seu governo são tomadas no melhor interesse do povo americano. Qualquer pessoa que se apresente como 'jornalista' e diga o contrário apenas repete a mesma narrativa falsa e desgastada que os democratas e a mídia tradicional vêm promovendo há uma década."
Presidentes anteriores já estiveram envolvidos em escândalos financeiros que levantaram suspeitas de corrupção.
Historiadores apontam o período posterior à Guerra Civil americana (1861-1865), quando integrantes do Departamento do Tesouro no governo de Ulysses Grant (1869-1877) se envolveram em escândalos relacionados à venda de ouro e à arrecadação de impostos alfandegários, entre outras controvérsias.
Na década de 1920, durante a Presidência de Warren Harding (1921-1923), o secretário do Interior recebeu propinas em troca de concessão de direitos de exploração de petróleo, em um episódio que ficou conhecido como escândalo de Teapot Dome.
Mas nesses casos o presidente não esteve diretamente envolvido, nem foi acusado de enriquecer pessoalmente enquanto ocupava o cargo.

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Na era moderna, iniciada com a Presidência de Franklin D. Roosevelt, em 1933, vários presidentes tiveram parentes que tentaram lucrar com a proximidade com a Casa Branca.
O irmão do ex-presidente Jimmy Carter (1977-1981) promoveu uma marca de cerveja.
Enquanto Joe Biden ocupava a vice-presidência, seu filho Hunter Biden ganhou dinheiro com uma empresa de energia da Ucrânia.
Mas historiadores dizem que esses casos empalidecem diante dos lucros obtidos por Trump e pelos negócios de sua família desde seu retorno à Presidência.
"Essa é a grande diferença entre Trump e sua família e os outros presidentes", disse Perry, da Universidade da Virgínia. "Ganhar dinheiro aos montes enquanto ocupa cargo não é ilegal, mas é antiético. A maioria dos presidentes [do passado] não queria fazer isso."

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Antes de iniciar o seu primeiro mandato, em 2017, Trump transferiu o controle dos negócios da família, a Trump Organization, para seus filhos adultos. Mas a medida rompeu com o precedente adotado por presidentes anteriores, porque ele não colocou seus ativos em um truste cego tradicional nem se desfez de seus imóveis e outros investimentos.
Trump adotou medidas semelhantes antes de iniciar seu segundo mandato.
Antes da segunda posse, a Trump Organization afirmou que ele não participaria da administração cotidiana da empresa enquanto exercesse a Presidência dos EUA.
Na época, Eric Trump disse que a Trump Organization seguiria "padrões éticos rigorosos" durante o segundo mandato do pai.
Perdão a um magnata das criptomoedas
Ainda assim, Trump tomou uma série de decisões na Casa Branca que beneficiaram seus próprios negócios e empresas ligadas a outros integrantes do alto escalão do governo.
Em julho do ano passado, Trump sancionou uma lei de apoio às stablecoins, um tipo de criptomoeda, apenas quatro meses depois de a World Liberty Financial lançar sua própria moeda digital. Segundo sua declaração financeira, a empresa rendeu a Trump ao menos US$ 500 milhões (cerca de R$ 2,7 bilhões) em 2025.
Em outubro do ano passado, Trump concedeu perdão a Changpeng Zhao, fundador bilionário da empresa de criptomoedas Binance.
A decisão foi tomada depois de Trump passar a elogiar o setor de criptomoedas nos primeiros meses de seu retorno à presidência, apesar de, no passado, ter considerado esse mercado como "um desastre à espera de acontecer".
Desde que voltou à Casa Branca, os negócios da família Trump e de alguns de seus aliados próximos também lucraram em outros setores além das criptomoedas.
No ano passado, segundo reportagem do jornal americano New York Times, Trump fechou um acordo com o presidente do Cazaquistão que deu a uma empresa americana acesso a um importante projeto de mineração de minerais críticos no país.
Posteriormente, Eric Trump e Donald Trump Jr. adquiriram uma participação minoritária em uma empresa envolvida nesse projeto. A gestora de investimentos Cantor Fitzgerald, administrada pelos filhos do secretário de Comércio Howard Lutnick, também participou da operação.
Na quarta-feira (1º/7), Trump atribuiu seus ganhos ao desempenho do mercado de ações e afirmou que não participa dos negócios da família.
"Eu não me envolvo com minhas [finanças] pessoais. Tenho fundos que administram meu dinheiro", disse Trump a jornalistas. "Eu já tinha ganhado muito dinheiro antes de me tornar presidente. Eles investem meu dinheiro, e eu não converso com eles."
Especialistas e entidades que atuam no segmento de ética pública afirmam que os lucros obtidos por Trump com criptomoedas, em particular, representam um problema. "É claro que há um conflito de interesses", disse à BBC Richard Painter, ex-principal advogado de ética da Casa Branca no governo de George W. Bush.
"É uma situação muito, muito preocupante para o povo americano ver seu presidente ganhar tanto dinheiro."



























