Caso Queiroz: o que acontece com investigação sobre ex-assessor de Flávio Bolsonaro após decisão do STF

Flávio Bolsonaro
Legenda da foto, Como parte de uma investigação da Operação Lava Jato, foi identificada uma movimentação bancária suspeita no valor de R$ 1,2 milhão por parte de um ex-assessor de Flávio Bolsonaro
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Tempo de leitura: 5 min

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello negou nesta sexta-feira o pedido do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) para que a investigação que envolve seu ex-assessor Fabrício Queiroz saísse da primeira instância judicial e fosse remetida à Corte por prerrogativa de foro privilegiado.

A decisão reverte a suspensão das investigações determinada pelo vice-presidente do STF, Luiz Fux, até o retorno do relator do caso, o ministro Marco Aurélio, do recesso do Judiciário - o que ocorreu hoje.

Mas que acontece, na prática, com a investigação?

Formalmente, Flávio Bolsonaro não é investigado na operação do Ministério Público do Rio de Janeiro que apura suspeitas de pagamento de propina a deputados em troca de apoio ao governo de Sérgio Cabral no Rio de Janeiro.

A investigação envolve também movimentações financeiras atípicas de políticos e assessores apontadas pelo Coaf, órgão ligado ao Ministério da Fazenda responsável por combater lavagem de dinheiro.

No dia 18, a Promotoria fluminense afirmou em nota que, por cautela, não incluiu nomes de parlamentares nas 11 portarias que instauraram essas investigações, desdobramentos da Lava Jato.

"A dinâmica das investigações e a análise das provas colhidas podem acrescentar, a qualquer momento, agentes políticos como formalmente investigados. Esta forma de atuar indica o cuidado que o MPRJ tem na condução das investigações, com o fim de evitar indevido desgaste da imagem das autoridades envolvidas."

Em comunicado divulgado hoje, o Ministério Público do Rio reafirmou que "nenhum parlamentar pode ser considerado investigado na esfera criminal, bem como não requereu qualquer medida judicial nos respectivos procedimentos".

Mas o primogênito do presidente da República, Jair Bolsonaro, não vê assim. Ele recorreu ao STF sob o argumento de ser o alvo efetivo dos investigadores estaduais, o que feriria sua prerrogativa de foro como senador - cargo para o qual foi diplomado em 18 de dezembro.

Recursos não explicados

O STF rejeitou os dois principais pontos do pedido: tramitação sigilosa e mudança de instância. Em sua reclamação à Corte, Flávio afirmou que em 14 de dezembro, data posterior à sua eleição como senador, a Promotoria fluminense requereu ao Coaf informações sobre seus dados sigilosos de 2007 a 2018. A medida configuraria, segundo Flávio, quebra ilegal de sigilo bancário.

A defesa do senador do PSL reconhece que o STF mudou o entendimento sobre o foro especial de parlamentares, restrito a ilícitos ocorridos no exercício do mandato e ligados à atividade, mas defende que a corte defina a aplicação do foro caso a caso.

Flávio Bolsonaro com Queiroz em foto publicada no Instagram
Legenda da foto, Queiroz (à dir.) é ex-motorista e ex-segurança do deputado estadual Flávio Bolsonaro

Marco Aurélio rebate o argumento. "O reclamante desempenhava, à época dos fatos narrados, o cargo de deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, tendo sido diplomado senador da República no último dia 18 de dezembro. A situação jurídica não se enquadra na Constituição Federal em termos de competência do Supremo."

Se o pedido fosse aceito pelo STF, a investigação passaria a tramitar na Corte e a ser conduzida pela Procuradoria-Geral da República.

Agora, Flávio deve ser novamente convidado a depor no Ministério Público - ele faltou no dia 10/1 sob alegação de não ter tido acesso à íntegra dos autos. Dias depois, entrou com a reclamação no Supremo.

Em sua petição, a defesa de Flávio fala em "necessidade de preservar sua vida privada" e "inclusão ilegal de registros" bancários e fiscais. "(O Ministério Público) utilizou-se do Coaf para criar 'atalho' e se furtar ao controle do Poder Judiciário, realizando verdadeira burla às regras constitucionais de quebra de sigilo bancário e fiscal", argumentou o advogado Hugo Mendes Plutarco.

Mas, para Marco Aurélio, "a tônica, no âmbito da administração pública, é a publicidade. O sigilo corre à conta de situações jurídicas em que a lei o preveja. Nada justifica lançar, no cabeçalho, apenas as iniciais do reclamante, em razão, até mesmo, da ampla divulgação dada a este processo."

De qualquer maneira, mesmo que o nome do senador venha a figurar por completo na tramitação do processo, caso passe a ser investigado formalmente, a apuração conduzida pelo Ministério Público corre sob segredo de Justiça.

Procurado pela BBC News Brasil, o advogado de Flávio Bolsonaro ainda não respondeu ao pedido de entrevista. Tanto o filho primogênito do presidente Jair Bolsonaro quanto Fabrício Queiroz têm negado envolvimento com qualquer tipo de irregularidade.

Caso Queiroz

O Coaf produziu um relatório de inteligência financeira que sinaliza movimentações atípicas de diversas pessoas ligadas à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Entre elas, Queiroz, um policial militar aposentado que foi motorista e segurança de Flávio Bolsonaro e é amigo do presidente Jair Bolsonaro desde os anos 1980.

Segundo o Coaf, Queiroz movimentou R$ 1,2 milhão entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017. Uma reportagem do jornal O Globo afirma ainda que, entre 2014 e 2015, outros R$ 5,8 milhões entraram e saíram da conta de Queiroz, valor que chamou a atenção do Coaf por ser incompatível com o salário que ele recebia como policial e assessor.

O servidor estadual ganhava R$ 8.517,16 como assessor parlamentar no gabinete de Flávio, além de acumular uma aposentadoria mensal de cerca de R$ 12,6 mil da Polícia Militar fluminense.

Tuíte de Flávio Bolsonaro
Legenda da foto, No Twitter, Flávio Bolsonaro falou sobre sua confiança no ex-assessor

Em meio aos levantamentos do Coaf, foram identificadas movimentações que não tinham relação com o esquema da Lava Jato, mas que indicavam possível prática da "rachadinha" - devolução de salários por parte dos funcionários de gabinetes.

Uma das transações na conta de Queiroz citadas no relatório do Coaf é um cheque de R$ 24 mil destinado à primeira-dama, Michelle Bolsonaro. O presidente declarou que o dinheiro seria pagamento de um empréstimo de R$ 40 mil que ele próprio teria feito a Queiroz - o depósito na conta de Michelle, segundo Jair Bolsonaro, teria sido feito porque ele não teria tempo para ir ao banco pessoalmente.

Desde que o caso veio à tona, Queiroz e Flávio Bolsonaro faltaram aos depoimentos marcados pelo Ministério Público. O parlamentar afirmava que buscava ter acesso aos autos antes de depor, mas em seguida ele pediu suspensão das investigações ao STF.

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