'Terapia me ajudou a lembrar dos abusos que sofri do meu meio-irmão e levá-lo à Justiça'

Nikita Dallison, com vestido marrom e jaqueta preta, e Mellissa Arkwright, com vestido azul florido, abraçadas, posando e sorrindo para a fotografia

Crédito, Arquivo de família

Legenda da foto, Nikita Dallison e Mellissa Arkwright abriram mão do anonimato para contar o que aconteceu com elas
    • Author, Lauren Hirst
    • Role, BBC News
  • Published
  • Tempo de leitura: 6 min

Importante: esta reportagem contém detalhes de abuso infantil que podem ser perturbadores para alguns leitores.

As irmãs Nikita Dallison e Mellissa Arkwright tinham apenas seis e sete anos de idade quando começaram a sofrer abusos por parte do seu meio-irmão, Adrian Austin.

Dallison, hoje com 36 anos, se recorda claramente dos dolorosos detalhes. Mas Arkwright, com 35, ainda não conseguia se lembrar do que tinha acontecido com ela quando era criança.

Foi somente quando Dallison denunciou corajosamente os abusos à polícia em 2021, que Arkwright decidiu se submeter a uma terapia conhecida como dessensibilização e reprocessamento por meio dos movimentos oculares (EMDR, na sigla em inglês).

O procedimento consiste em ouvir sons, dar pequenos golpes ou acender e apagar luzes de forma intermitente, para fazer a pessoa se lembrar de um evento traumático.

Desbloqueio da memória

"Eu precisava da terapia porque minha saúde mental havia se desmoronado por completo... mas nunca entendi por quê", conta Arkwright.

"Submeter-se a ela [terapia] é horrível, porque você sente absolutamente tudo."

"Quando você recebe a terapia, pode sentir o ambiente que havia no quarto" no momento em que a lembrança foi desbloqueada, explica ela.

A terapia EMDR ajudou Arkwright a recuperar uma recordação específica, que acabou sendo fundamental para as provas que levaram à condenação de seu meio-irmão.

Austin tem hoje 45 anos. Ele foi preso em julho e condenado a 17 anos de prisão após ser declarado culpado de seis acusações de manter relações sexuais com uma menina menor de 13 anos, o que é classificado como estupro segundo as leis sobre crimes sexuais vigentes no Reino Unido.

Ele também foi declarado culpado de quatro crimes de agressão sexual e de um crime de atos indecentes com uma pessoa menor de idade, cometidos entre 1997 e 2001.

"Relembrar o dia em que ele foi condenado ainda me perturba, pois conseguimos justiça para aquelas meninas", declarou Arkwright.

"Foi algo surreal e acredito que nunca chorei tanto quanto naquele dia. Foi como se tivessem tirado um grande peso de cima dos meus ombros. Eu sabia que tudo havia terminado. Ele não pode prejudicar mais ninguém", afirma ela.

Fotografia de 1996 mostrando Nikita Dallison e Mellissa Arkwright, de pé na calçada, junto a uma rua

Crédito, Arquivo de família

Legenda da foto, Mellissa Arkwright e Nikita Dallison, em 1996

As vítimas de crimes sexuais têm automaticamente direito ao anonimato no Reino Unido. Mas as irmãs abriram mão deste direito para poderem contar a sua história.

Os abusos começaram quando Austin se mudou para a casa da família em Manchester, na Inglaterra, aos 10 anos de idade. Antes, ele morava com o pai.

"Ele se comportava de forma inadequada", conta Dallison. "Ele nos pedia para mostrar nossa roupa de baixo, esse tipo de coisas, e a situação foi piorando até que ele chegou a nos tocar."

Ela relembra o "medo, confusão e pavor" que sentiu quando era criança. E, em pouco tempo, ele começou a abusar das irmãs, segundo ela.

Após anos de silêncio, Dallison decidiu denunciar à polícia o que aconteceu.

Na época, seus filhos tinham a mesma idade que ela quando sofreu os abusos. Dallison não conseguia compreender como alguém poderia ser tão cruel.

Ela também acreditava que a saúde mental de Arkwright havia se deteriorado drasticamente ao reviver as recordações do abuso, sem ter consciência de que não conseguia se lembrar do que havia acontecido.

A confirmação

O inspetor Chris Preston, da polícia da região metropolitana de Manchester, contou que primeiro ouviu Dallison e depois conversou com cautela com Arkwright, que passava por uma crise de saúde mental e não se lembrava dos abusos.

Mas, à medida que a investigação avançava, Arkwright contou a única recordação que havia recuperado, graças à terapia EMDR.

"Este tipo de terapia é novo para nós e precisamos investigar um pouco para descobrir o significado exato dela", explica Preston.

A terapia EMDR foi realizada por uma pessoa que passou a atuar como perito no julgamento.

"Seu testemunho foi muito claro. Foi um testemunho incrível, que explicou a terapia EMDR com muita clareza", relatou, lembrando que Melissa conseguiu recuperar uma recordação muito específica.

"Ela pôde descrever o quarto, o estrado da cama, o espaço entre os dentes de Adrian Austin quando ele cometia seus crimes horríveis. Esta confirmação é muito importante", segundo Preston.

Na foto policial, Adrian Austin, de moletom cinza com capuz, olha fixamente para a câmera, sem nenhuma expressão no rosto

Crédito, GMP

Legenda da foto, O Tribunal Real de Manchester condenou Adrian Austin a 17 anos de prisão

Durante a investigação, soube-se também que a polícia havia ouvido Mellissa Arkwright sobre os abusos em 1997, mas o caso não foi adiante.

As circunstâncias exatas não são conhecidas. A polícia acredita que seus pais tenham denunciado o abuso aos policiais, mas se colocado ao lado de Austin.

Em 2021, a investigação da polícia da região metropolitana de Manchester revelou que os pais das irmãs tinham conhecimento do abuso.

"O nosso lema familiar era 'o que acontece na família fica na família', mas não é mais", conta Arkwright.

"Eles sempre diziam isso. Mas, agora, não fico mais calada. Sempre me chamavam de mentirosa, de dramática. Agora, não importa mais. Vou dizer o que tiver que dizer."

A conversa da polícia com Melissa em 1997 foi gravada em vídeo e encontrada em uma fita VHS em um armazém policial repleto de caixas, do piso até o teto. Ela também foi incluída entre as provas do julgamento.

Austin se mudou de casa depois disso, mas continuou tomando conta das irmãs no seu apartamento em Manchester.

A polícia o interrogou diversas vezes. Ele continuava negando o crime e alegava que as irmãs nunca estiveram no seu apartamento.

Mas Nikita Dallison conseguiu descrever a distribuição exata dos cômodos, que coincidia com os registros do local.

'Sensação de alívio'

Dallison sentiu enorme alívio quando o júri anunciou o veredito considerando Austin culpado. E também por saber que sua irmã não se lembrava de tudo o que havia acontecido com elas.

"Não falamos disso nem mesmo hoje, porque tenho total consciência de que Mellissa não tem essas lembranças", conta Dallison. "Isso me conforta muito, na verdade."

"Achei muito estranho quando fiquei sabendo. Pensei que ela simplesmente estivesse escondendo e que não quisesse falar", afirma.

"Mas sei que, agora, ela sabe de algumas coisas, depois do que aconteceu no julgamento. É triste, mas me consola muito o fato de que ela não tenha tudo na memória."

Foto de Nikita Dallison e Mellissa Arkwright em 1994, sorrindo e aplaudindo

Crédito, Arquivo de família

Legenda da foto, Mellissa Arkwright e Nikita Dallison, fotografadas em 1994, antes de Austin se mudar para a casa delas

A detetive Rebecca Lovekin declarou que as irmãs demonstraram "enorme ccoragem, apoio e disposição durante este processo".

"O simples fato de denunciar esses crimes foi um passo enorme para elas", destacou Lovekin.

"Compreendemos que foi difícil para as duas quando a investigação inicial de 1997, não seguiu até o ponto a que deveria ter chegado. Reconhecemos este fato e pedimos desculpas a elas pela forma como aquela investigação foi conduzida na época", destacou.

"Desde então, nós progredimos e a forma de investigação de abusos sexuais, particularmente do abuso sexual histórico, evoluiu consideravelmente, com maior compreensão das experiências dos sobreviventes."

"A polícia da região metropolitana de Manchester, hoje, fez justiça para as meninas e colocou Austin atrás das grades", conclui Rebecca Lovekin.