A série de assassinatos que mostra como influencers viraram alvo do narcotráfico no México

César Gastélum tira uma selfie em frente a um espelho

Crédito, César Gastélum/Instagram

Legenda da foto, César Gastélum foi morto a tiros em frente a um restaurante fast-food em Culiacán, no México
    • Author, Daniel Pardo
    • Role, Correspondente da BBC News Mundo no México
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  • Tempo de leitura: 6 min

O influencer de 25 anos César Gastélum fazia uma transmissão ao vivo com dois amigos, em frente a um restaurante fast-food em Culiacán, no Estado mexicano de Sinaloa. De repente, dois homens de moto se aproximaram e o mataram, disparando contra sua cabeça.

O ataque ocorreu na terça-feira (4/8) à noite e foi gravado pela sua câmera.

Centenas dos 500 mil seguidores acompanharam ao vivo a morte de "Cesarín", o jovem criador de conteúdo que compartilhava temas como humor, desafios, estilo de vida, viagens, vida noturna e carros.

Gastélum se soma à lista de pelo menos 10 influenciadores executados no Estado, localizado no noroeste do México, desde o início da guerra entre as facções do Cartel de Sinaloa, dois anos atrás.

Segundo as informações divulgadas pelas autoridades até o momento, Gastélum não era ameaçado nem investigado, como ocorreu em outros casos de influencers assassinados.

Ele compartilhava conteúdo sobre luxo e havia publicado material no túmulo de Leobardo Aispuro, o "Gordo Peruci", outro influencer assassinado em 2024.

"Entre as linhas de investigação, encontram-se diversas publicações, algumas delas fazendo alusão a uma facção de um grupo criminoso", segundo o comunicado emitido pela Procuradoria de Sinaloa, sem fornecer maiores detalhes.

A imprensa local atribuiu as alusões a um recente conteúdo de Gastélum sobre "La Mayiza", uma facção do cartel de Sinaloa leal ao capo Ismael "El Mayo" Zambada, condenado nos Estados Unidos, cuja prisão gerou uma guerra interna.

Segundo a presidente do México, Claudia Sheinbaum, os governos local e federal prometeram investigar e identificar os responsáveis materiais e intelectuais pelo ocorrido.

Mas a maioria dos homicídios de criadores de conteúdo continua sem punição e não há registro oficial de uma categoria que os tipifique perante a legislação mexicana.

César Gastélum, de boné preto, sentado sobre uma BMW branca

Crédito, César Gastélum/Instagram

Legenda da foto, O influencer caiu instantaneamente e os espectadores da sua transmissão ao vivo presenciaram sua morte

O certo é que muitos criadores de conteúdo, não apenas em Sinaloa, adquiriram papel de protagonista da vida criminosa do México, o que os transforma cada vez mais em alvos.

"O algoritmo e o narcotráfico promovem o mesmo: chegar rapidamente ao consumo e ao luxo como valores máximos", analisa Claudia Arruñada, especialista em comunicação da Universidade Iberoamericana, no México.

"Quando o modelo do sucesso deixa de ser construir uma carreira metódica, mas sim uma carreira meteórica, as redes sociais e o narcomundo acabam involuntariamente sendo aliados."

Fenômeno opaco

Em janeiro de 2025, caíram de um avião sobre as ruas de Culiacán panfletos acusando 25 influencers e músicos de estarem vinculados à "La Mayiza". Um deles era Peso Pluma, cantor e compositor famoso no país.

Quatro daqueles nomes já haviam sido executados e apareciam nos folhetos com os dizeres "ELIMINADO". Dois outros foram mortos desde então.

Gastélum não estava na lista, nem era investigado pelas autoridades por possíveis ligações com o crime. Mas muitos inevitavelmente interpretarão seu brutal assassinato como parte de uma tendência aparente.

Trata-se da tendência do "narcoinfluenciador", que parte de um fenômeno opaco, cuja magnitude é difícil de se estimar.

Alguns deles realmente trabalham para o narcotráfico, mas outros (talvez a maioria) estão presos neste contexto ou são jornalistas cidadãos que investigam o assunto.

Muito do que se sabe a respeito surgiu depois que os Estados Unidos decidiram investigar e impor sanções a centenas de mexicanos supostamente envolvidos com o narcotráfico.

As indagações estão em curso, e a maioria dos criadores de conteúdo acusados negou qualquer tipo de implicação.

O motivo das mortes talvez não seja, necessariamente, seu envolvimento em práticas ilegais. Simplesmente ser jovem, visível e chamativo em Culiacán, atualmente, pode transformar uma pessoa em alvo.

Retrato de Valeria Márquez

Crédito, Reuters

Legenda da foto, A modelo e influencer Valeria Márquez também foi morta durante uma live. Soube-se posteriormente que ela mantinha relacionamento com um narcotraficante

A nova forma de publicidade do narcotráfico

Os cartéis do México são multinacionais com diversos ramos de negócios. E, como qualquer empresa, eles incluem uma área de publicidade.

Diversos estudos acadêmicos descobriram que os cartéis usam criadores de conteúdo como uma espécie de gerentes de comunidades, para divulgar suas posições e aspirações.

E, quando eles se enfrentam, os ativos de propaganda de uma das facções, como um influenciador, se tornam alvo da outra.

Os cartéis usaram os músicos durante anos para glorificar seus líderes, ou reciclar o mito do bandido social no que se denominou "narcocorridos" (ou seja, corridos, gênero musical típico mexicano, dedicados ao narcotráfico).

Atualmente, alguns influencers ajudam neste trabalho publicitário de forma similar.

"Eles promovem a narcocultura de forma muito mais eficiente que as canções, pois já não o fazem com metáforas, não é uma ficção, mas alguém mostrando aquela que supostamente é a sua própria vida, com seus vínculos a essas estruturas simbólicas do narcotráfico", explica Arruñada.

Um estudo do Colégio do México concluiu que, especialmente no TikTok, onde quase não há moderação, os narcotraficantes tentam recrutar pessoas com vídeos que promovem a vida fácil, a ostentação e o desafio à polícia.

Em Sinaloa, as facções "La Mayiza" e "Los Chapitos", atualmente em confronto, usam hashtags e narrativas típicas das redes sociais como parte da sua batalha recorrente. "La Mayiza" adotou o tradicional chapéu sombrero como símbolo, e "Los Chapitos" transformaram a pizza no seu ícone.

Gastélum, por exemplo, foi visto recentemente com o sombrero símbolo da "La Mayiza". Mas isso, mais do que uma prova, é uma amostra de que a cultura popular também foi cooptada pelo narcotráfico.

César Gastélum com boné e camiseta preta, em um vídeo no seu canal do YouTube

Crédito, César Gastélum/YouTube

Legenda da foto, Até o momento, não há confirmação oficial do motivo da morte de 'Cesarín'

Outra forma de lavagem

Além de serem os rostos que normalizam a cultura do narcotráfico, acredita-se que os influenciadores, ainda que em menor medida, também possam participar do trabalho de lavagem de dinheiro.

Em julho de 2025, foi publicada uma lista de 64 criadores de conteúdo de Sinaloa investigados pela Unidade de Inteligência Financeira (UIF), organismo da Secretaria da Fazenda, por supostamente usarem seus perfis para transformar dinheiro sujo em limpo.

Para isso, existem diversos mecanismos, como relata o jornalista Óscar Balderas. Com rifas e sorteios, empreendimentos, patrocínios ou assinaturas, o influencer ganha notoriedade, que é remunerada com o dinheiro obtido na plataforma, por conta do alto número de visualizações.

As plataformas não rejeitaram estas suposições de forma unânime ou contundente. A Meta afirmou não ter encontrado violações às suas políticas nas contas assinaladas, e o YouTube cancelou a conta do influencer e músico "El Makabélico", que é objeto de sanções do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.

Na verdade, mais do que as plataformas, os influenciadores seriam o mecanismo de lavagem, usando suas atividades e negócios como fachada para lavar o dinheiro.

Mas Gastélum não estava na lista dos investigados pela UIF.

Além de investigar o fenômeno, o governo Sheinbaum pretende romper o vínculo entre a cultura popular e o narcotráfico, intervindo nas letras dos corridos e promovendo outros temas na produção artística mexicana.

Paralelamente, o governo do México deu início à guerra que trouxe mais resultados em anos de combate ao crime, conseguindo reduzir os homicídios em 48% em 2025, segundo os números oficiais.

Mas incidentes como o de Gastélum ou da famosa influenciadora mexicana Valeria Márquez, assassinada a tiros enquanto realizava uma transmissão ao vivo pelo TikTok, dão a impressão de que o narcotráfico continua marcando presença não apenas nas ruas mexicanas, mas também no mundo digital e na cultura.

Claudia Arruñada defende que "os casos de influencers assassinados demonstram que, além da questão do seu possível envolvimento, o conteúdo simbolicamente relacionado ao narcotráfico não irá desaparecer, pelo contrário. Ele irá migrar para o formato seguinte, de forma ainda mais eficiente e massiva."

"Ninguém imaginou que a cultura do narcotráfico encontraria um aliado na cultura do algoritmo, mas é exatamente o que eles são", conclui a professora.